
... mas nunca, por nunca ser, o navegador solitário pôs os pés em terra com o fito de levar mulher para ser sua companheira na navegação.
Se realmete acontece que no porto uma mulher está à espera, absurdo seria que desdenhasse dela, mas no geral é ela quem quer e pelo tempo que entende, nunca o navegador solitário lhe disse: Espera por mim, que um dia hei de voltar - não é um pedido que ele se permitisse fazer.
Espera por mim, nem ele poderia garantir que estará de volta nesse dia ou alguma vez, e, voltando, quantas vezes lhe aconteceria encontrar o cais deserto, ou, mulher havendo nele, está à espera de outro marinheiro, não sendo contudo raro que, faltando este, sirva o que apareceu.
A culpa, se é preciso dizê-lo, não está nas mulheres nem nos navegadores, a culpa está nesta solidão que às vezes não se aguenta, também ela pode levar o navegador ao porto, e a mulher ao cais.
-José Saramago-
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